Dessa vez eu estava sentado em um banco normal, terminando de ler o meu A Lista de Schindler, mas aí bateu aquele sono de quebrar pescoço de tanto que a cabeça pesa. Acabei por quardar o livro e recostar no banco, que ficava na janela, e tirar aquele cochilo de olho aberto. Acordei meio sonolento na metade do caminho, o banco estava confortável, não havia ninguém roubando meu espaço então resolvi continuar de olhos fechados. Foi quando o ônibus parou no terminal. Senti um cutucada na canela seguida de um pedido:
- Meu filho, deixa eu sentar aí.
A princípio ignorei. Pensei comigo: estou de fone, de olhos fechados, a cadeira não é para idosos ou derivados. Vou fingir que estou dormindo sem piedade alguma. Foi aí que senti mais uma cutucada na perna abri os olhos e vi a pessoa. Uma maltrapilha na pegada mendiga suja que não via um chuveiro desde o impeachment do Collor. E mais uma vez repetiu:
- Meu filho, deixa eu sentar aí, eu preciso sentar.
Se fosse apenas isso eu ainda permaneceria no meu lugar. Agora o fato dela ter escarrado no espelho depois da segundo súplica foi um fator decisivo para que levantasse. Liguei o alerta de maluco no máximo, levantei na pressa e a Mendiga começou o show:
- Eu tenho que tomar banho 3 vezes por dia. Porque eu gosto de ficar limpa. Vou abrir esse vidros pra respirar, porque o bafo de vocês fede muito. Não gosto de bafo. E eu falo pra minha neta escovar os dentes e tomar banho pra não ficar igual vocês, seus fedidos.
Seguiu-se outra catarrada, dessa vez no chão. E o pessoal em volta caiu na risada(Juro que não entendi o porquê!). Cena feita, a Mendiga começou a domir e roncar, algo que não me surpreendeu. Eu estava com a atenção nela, pois fiquei perto(Onibus lotado!) e precisa observar o que ela poderia fazer. Porque você sabe. Maluco é igual bomba-relógio sem timer, uma hora explode, então é bom ficar de olho. E nessa você tem que evitar ao máximo olhar para outras pessoas, pois os free-talkers estão com a boca espumando esperando para que alguém dê atenção para comentar o ocorrido. E foi só um deslize meu. Passei a vista e a senhora que estava na minha frente, desesperada por atenção, lançou:
- A gente sente dó né. Não sabe se é culpa do marido ou dos filhos, a pessoa chegar numa situação dessas.
Concordei com um simples “pois é”.
E agora além da mendiga maluca, eu tinha que desviar atenção da free talker. Resultado óbvio, torcicolo. Que é claro, vale mais que um small-talk ou uma catarrada.
Dessa vez eu estava sentado em um banco normal,
terminando de ler o meu A Lista de Schindler, mas aí
bateu aquele sono de quebrar pescoço de tanto que a
cabeça pesa. Acabei por quardar o livro e recostar no
banco, que ficava na janela, e tirar aquele cochilo de
olho aberto. Acordei meio sonolento na metade do caminho,
o banco estava confortável, não havia ninguém roubando
meu espaço então resolvi continuar de olhos fechados. Foi
quando o ônibus parou no terminal. Senti um cutucada na
canela seguida de um pedido:
- Meu filho, deixa eu sentar aí.
A princípio ignorei. Pensei comigo: estou de fone, de
olhos fechados, a cadeira não é para idosos ou derivados.
Vou fingir que estou dormindo sem piedade alguma. Foi aí
que senti mais uma cutucada na perna abri os olhos e vi a
pessoa. Uma maltrapilha na pegada mendiga suja que não
via um chuveiro desde o impeachment do Collor. E mais uma
vez repetiu:
- Meu filho, deixa eu sentar aí, eu preciso sentar.
Se fosse apenas isso eu ainda permaneceria no meu lugar.
Agora o fato dela ter escarrado no espelho depois da
segundo súplica foi um fator decisivo para que
levantasse. Liguei o alerta de maluco no máximo, levantei
na pressa e a Mendiga começou o show:
- Eu tenho que tomar banho 3 vezes por dia. Porque eu
gosto de ficar limpa. Vou abrir esse vidros pra respirar,
porque o bafo de vocês fede muito. Não gosto de bafo. E
eu falo pra minha neta escovar os dentes e tomar banho
pra não ficar igual vocês, seus fedidos.
Seguiu-se outra catarrada, dessa vez no chão. E o pessoal
em volta caiu na risada(Juro que não entendi o porquê!).
Cena feita, a Mendiga começou a domir e roncar, algo que
não me surpreendeu. Eu estava com a atenção nela, pois
fiquei perto(Onibus lotado!) e precisa observar o que ela
poderia fazer. Porque você sabe. Maluco é igual
bomba-relógio sem timer, uma hora explode, então é bom
ficar de olho. E nessa você tem que evitar ao máximo
olhar para outras pessoas, pois os free-talkers estão com
a boca espumando esperando para que alguém dê atenção
para comentar o ocorrido. E foi só um deslize meu. Passei
a vista e a senhora que estava na minha frente,
desesperada por atenção, lançou:
- A gente sente dó né. Não sabe se é culpa do marido ou
dos filhos, a pessoa chegar numa situação dessas.
Concordei com um simples “pois é”.
E agora além da mendiga maluca, eu tinha que desviar
atenção da free talker. Resultado óbvio, torcicolo. Que é
claro, vale mais que um small-talk ou uma catarrada.