Senhoras

Postado por Yuri Kiddo
em 26 - mar - 2010

Na avenida Paulista, em direção ao trabalho, uma senhora de quase um século andava em direção oposta a minha, me olhou, apontou para onde tinham uns moradores de rua acordando e fez uma cara de repugnância.

- O que foi, senhora?

Ela me contou sobre como esses moradores estragam a cidade, são a escória da raça humana, resumidamente. Tivemos uma rápida discussão e falei sobre a culpa da sociedade nisso tudo, que nós, inclusive ela, era culpada. Ela me xingou, exonerou minha existência – jovem, que ela insistiu em frisar – com escárnios dispensáveis para se prolongar aqui. Tudo em alto e bom som.

Mesmo ignorando-a, meu humor tinha ido para o espaço logo de manhã. Mas foda-se, não preciso me preocupar tanto com as senhoras que encontramos no caminho, logo logo elas morrem.

À noite, voltando para casa, no busão lotado, eu vacilei e quase caí numas pessoas que estavam sentadas. Uma delas era uma senhora, também de quase um século, que me segurou e perguntou se eu estava bem. – Estou bem, obrigado.

Geralmente os idosos são ranzinzas, apressados e mal-educados. Mas a senhora me surpreendeu quando se ofereceu para segurar a minha mochila, enquanto me assistia atrapalhado tentando guardar um livro, segurando uma caneta, com um gordão do tamanho do ônibus tentando passar para chegar na porta. – Não precisa, não, obrigado. E sorri um sorriso sincero, de simpatia. Fui simpático.

Vagou um lugar ao lado da senhora e eu sentei. Claro que ela puxou assunto, e eu gosto de small talks, dei corda. Ela começou falando sobre um periquito que estava trazendo numa caixinha, ali mesmo no bus. Me mostrou e me falou sobre outros passarinhos que tinha em casa, e em como ficou triste e chorou quando um morreu afogado numa pequena bacia que ela colocara para eles se banharem. Eu queria dizer que não gostava da ideia de prender os pássaros e que, na verdade, eu nem gostava de passarinhos. Mas não quis ser grosseiro, eu queria ouvi-la desabafar.

A senhora é portuguesa, está no Brasil desde os nove anos, mas nunca perdeu o forte sotaque. Ela disse que ia descer no próximo, pediu para eu puxar o sinal. Eu também iria descer no próximo. – Ótimo, ela disse, somos vizinhos. Quando ela me contou onde morava, acabei descobrindo que ela é avó de uma garota que estudou comigo no colégio. Descemos, nos despedidos.

- Tenha uma boa vida senhorinha.
- (Ela ri) Você também, meu filho.

As senhoras dos nossos caminhos. Logo logo elas morrem.

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Trajetando

Postado por Milla Pupo
em 02 - mar - 2010

É um ponto errado, um sinal não dado, um tropeço para frente ou para trás. É a falta de troco, a falta da passagem, a moeda que não completa, a catraca que não vira. Trava a viagem, trava a vida, trava a língua. Nem uma palavra sai e nem um passo vai.

É o coletivo individual, trancado nos meus fones, nos meus livros, arremetido na poça da beira da porta. É o cobrador que não é cobra e o motorista que não olha a velha na porta. Sou eu querendo sair antes de chegar. É o freio que faz todo mundo sambar, é a curva que te entorta e a reta que não chega. É o cheiro de cebola saindo e a fumaça do motor entrando.

Sou eu fazendo parte, sem querer me integrar. É você me vendo e fingindo não estar. É a esmola da minha passagem com vergonha da sua. É meu sinal que nada diz, meu ponto que não condiz. É meu transporte, falta de opção, carência e emoção. É a passagem diária para o abandono do meu mundo, é a zona de conforto se despedindo. Sou eu dando “bom dia” e atropelando ironias. Somos nós partilhando o mesmo corredor. Eu primeira pessoa e você, sempre terceira. “Nós” nunca existirá porque sua função é me carregar. Pra lá e de volta aqui, até de novo partir.

Boa viagem.

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Os Semi-Conhecidos

Postado por Renan
em 25 - fev - 2010

As pessoas tem amigos com quem gostam de conversar. Alguns tem colegas. Outros, conhecidos. E tem também o nível de semi-conhecido. Pode ser aquela pessoa a qual você foi apresentado uma única vez na vida que é conhecido de um amigo ou colega seu. Pode ser também aquela com quem você trabalha no dia dia e faz cumprimentos com a cabeça, com a mão ou quando encontra a pessoa na copa, solta um quase-cumprimento, geralmente um “opa” ou “oba”. Em vias gerais, os semi-conhecidos estão presentes em nossas vidas de várias maneiras. O que complica é quando, em algum momento das suas idas e vindas do trabalho, o encontra por acaso no ônibus ou metrô.

Para ajudar você a evitar aquele semi-conhecido ’sociavél’ e chato, preparei 4 passos básicos, que se seguidos à risca devem impedir que você caia em uma conversa vazia sobre o tempo:

- Observe o ambiente.

Ao entrar em qualquer transporte público, varra o lugar, de forma minuciosa e discreta, em busca de algum SC(Semi-Conhecido). É de vital importância saber onde ele está sentado ou posicionado para que você possa de alguma forma fugir do seu raio de visão.

- Bloqueadores sociais.

Tenha sempre em mãos um livro ou revista. Mas atenção você deve pelo menos fingir a leitura. E aos ouvidos um fone, mesmo que não esteja ligado. Caso o SC consiga te localizar, ele ficara receoso de tentar uma aproximação pelo fato de você ter sua atenção voltada para o livro e fone. Falo do fone e livro por ocuparem os principais sentidos que são o carro chefe para início de qualquer conversa, a visão e audição.

- Sempre em Pé.

Jamais sente. Por mais que o ônibus ou metrô esteja vazio ou haja lugares desocupados você se tornará alvo fácil para o SC. É importante manter a movimentação em relação a ele. Estipule uma distância de no mínimo 5 pessoas e acompanhe seus movimentos. Esse passo exige muita perícia pois você não pode ser visto e deve ser observador.

- Paciência

Esse último não é um artifício, é uma virtude de última instância. Exige uma pré-análise do ponto de ônibus. Caso o ponto esteja vazio e apenas o SC estiver por lá, dê meia volta e espere. Espere o dito seguir a rota dele para aí sim seguir seu caminho, mesmo que seja o mesmo ônibus e que ele passe de uma em uma hora. Você não vai querer sofrer com uma conversa de demora de ônibus, e no fim ainda ser obrigado a ouvir um convite: “vamos marcar?”.

As dicas acima evitam a maioria dos semi-conhecidos. Agora contra os SC agressivos não há fone, livro e desvio que dê jeito. Eles vão dobrar pessoas, se espremer, assoviar, chamar e o pior, cutucar. Tudo por uma conversa vazia e sem compromisso para fazer aquele social descompromissado com um papo todo feliz, às 8 da manhã. Meu conselho nessa hora é, finja um desmaio, pague de maluco, ou desça no primeiro ponto/estação, porque pagar por mais para continuar a mesma viagem pode valer a pena.

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Placas e monstros

Postado por Yuri Kiddo
em 19 - fev - 2010

É proibido fumar neste local.

Vou raspando o cigarro tentando apagá-lo no corrimão antes de entrar no metrô. Utilize o corrimão, garante minha segurança. O segurança me olha feio como se estivesse garantindo alguma segurança, como se houvesse necessidade de. Ninguém faz nada quando entro com meu cigarro aceso no saguão do metrô. Apago na catraca enquanto passo o Bilhete Único. Todos fingem não me olhar. Eu olho pra todo mundo.

Quem fica a direita facilita a circulação.

Mesmo eu sendo mais esquerda, facilito a circulação. Desço as escadas – utilizando o corrimão – em direção ao pavimento, à mais espera. Eu não gosto de esperar. Quem espera sempre alcança, uhum.

Aguarde o trem antes da faixa amarela.

Eu não posso escolher aonde quero aguardar o trem, dou um passo pra trás.

Antes de embarcar, deixe as pessoas saírem, acompanhado de uma carinha sorridente. Simpático.

Pego um canetão e desenho o bigode e o cabelo emo de Adolf – que sorri no inferno com gosto da piada que virou isso tudo. Consigo ouvir as risadas.

Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.
Cuidado, porta automática. Risco de ferimentos graves.

Andar de metrô é realmente muito perigoso. Sempre imagino um monstro gigante com tentáculos escapando por aqueles trilhos tentando pegar pelo vão quem está além da faixa amarela.

Cuidado com o monstro entre o trem e a plataforma.

Cuidado, monstro. Risco de ferimentos graves.

Não dê esmolas, diz o deus do metrô.

Está tão cheio aqui. Preciso sair daqui.

Para abrir a janela destrave os dois pinos ao mesmo tempo.

Será que eu passo pela fresta da janela? Preciso sair daqui, fugir dos monstros daqui.

Cuidado, seres humanos. Risco de ferimentos graves

É proibido fumar neste local. Acendo um cigarro dentro vagão, ponho os fones e fecho os olhos em busca de uma saída.

legomonster2

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Boça também vai de ônibus

Postado por Renan
em 11 - fev - 2010

O Boça também curte, sofre ou faz sofrer com small talk no ponto de ônibus:

O video foi idéia roubada do twitter da @veg_gija . =)

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Nada de protesto

Postado por Yuri Kiddo
em 05 - fev - 2010

As pessoas são fodas. O meu fone está quebrado faz um tempo já e só funciona quando quer. Semanas atrás eu estava no tróleibus, voltando de um dia de trabalho árduo, de conversas ásperas e pessoas chatas, só querendo sumir quando de repente o trololó para e fica. Eu estava sentado, ainda bem, porque o bus tava lotado, como sempre.

“Ihhh que será que aconteceu?”

“Um ônibus quebrou”

“Não, é um protesto, parece”.

“Esses baderneiros, ficaí atrapalhando a vida dosotro. Vai protestar pra lá”.

Claaaro que ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo e nem dava pra ver nada direito. As frases estúpidas daquelas pessoas estavam me rasgando, mas tentei manter a atenção no que eu estava lendo e ignorar o calor e os trabalhadores reacionários presentes. O céu cada vez mais fechado começou a me deixar cada vez mais frustrado. Queria sair dali, ficar surdo, limpo e descansado no conforto da minha cama. Aquele dia tinha sido longo demais. Longo demais.

Aquelas reclamações eram horríveis. As pessoas só falam merda, parece até que intencionalmente. Multidão se nivela sempre por baixo. “Ihhh botaram fogo no sofá, olha lá”. Nesse momento, já havia uma frota de ônibus aguardando o final do alarde. Polícia, bombeiros, sirenes. Nessa hora, o comboio de gente dos outros ônibus já tinha entrado no tróleibus que eu estava. Entrem, entrem no Coração de Mãe com destino à Diadema. Trash!

Tinha saído às 18h em ponto do trabalho. Meu itinerário, em horários obscuros, eu consigo estar em casa em 1h15 no máximo; no horário de pico, 1h40. Eram 19h30 e eu lá, parado em frente ao CÉU Jabaquara, totalmente passivo. No final, eu cheguei mais de 20h em casa, tomei chuva, estava com fome e sem fone. E o que realmente aconteceu foi que uns garotos tinham posto fogo nuns barracos ali na favela da Americanópolis e tinham interditado a rua. Nada de protesto, infelizmente.

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Yes, We Can

Postado por Renan
em 28 - jan - 2010

- Filho, acorda, todo mundo perdeu a hora hoje!

Eram 3 celulares para despertar e mais um despertador de 1,99. Quais são as chances de todas as pessoas da casa travarem e voltarem a dormir!? Era segunda-feira, e foi exatamente o que aconteceu.

Começa então a correria de tomar banho, troca de roupa e café em menos de 10 minutos, tarefas que são feitas com pouco mais de 30 minutos. Daí pego carona com meu pai até o terminal de troleibus para ir até o jabaquara. Foi então que eu e meu irmão, feitos zumbis, fomos no arrastando para a fila da galera que vai sentada. Sentamos juntos de frente para outro banco duplo onde haviam 2 pessoas. Um senhora de idade e a razão dessa históra: uma garota branquela, cabelos lisos castanhos aparentando lá pelos 22 anos com um beleza charmosa e fora dos padrões novelísticos.

Fatalmente fiquei hipnotizado pela garota, mas o que me assustou foi o fato dela também não parar de me olhar e nessas horas a primeira teoria que te vem à cabeça é de que as pessoas te olham por você ser feio e com certeza vão desistir em breve. Mas não foi isso que aconteceu. Continuavamos a trocar olhares, encaradas e até mesmo sorrisos entre uma pescada e outra de ambos, nos revelando ao menos algo em comum, o sono.

Foi então que comecei a formular uma insana proposta para mim mesmo: Se ela descer no mesmo terminal que eu, vou pedir o telefone dela. Apostei na probabilidade de me dar bem, ou seja, com mais 15 pontos de descida pela frente ela tinha que descer em algum e eu não precisaria explodir de vergonha e pedir o telefone dela. Porém faltamente e felizmente, murphy não falha nunca. Chegamos ao terminal e meu coração à garganta, tamanho o nervosismo. Começamos a descer e disse ao meu irmão:

- Vou pedir o telefone de uma garota.

No que ele, sem fé alguma, respondeu:

- Duvido, você não tem coragem!

Suas palavras soaram como um tiro de início de maratona para mim. E então tomado de uma única e inexplicável coragem, corri até a garota peguei em seu braço e disse:

- Oi, desculpa de incomodar, mas não pude deixar de te olhar a viagem inteira. Nunca fiz esse tipo de coisa, mas será que você poderia me dar seu telefone pra gente se conhecer? – Tudo isso acompanhado de um smile facial: =)

Veja bem, até o momento já me considerava o vencedor da maratona por ter, de alguma forma, superado a minha estúpida timidez e ter falado com a garota. Mas desse dia em diante percebi que os corajosos de atitute tem sua recompensa bem merecida. Com um sorriso tímido, a garota disse:

- Claro. + Smile facial =)

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love bus

Postado por Milla Pupo
em 26 - jan - 2010

Já na fila, no terminal, ela o observou. Ele, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro. Olhos e cabelos castanhos, uma pessoa, por assim dizer, castanha. Ordinariamente comum para muitos, mas não para ela que o observou. Que conseguiu ver muito mais por trás daqueles óculos marrom.

O ônibus não chegava e na fila ela ficou torcendo para pegar o mesmo coletivo que ele, porque poderia ter uma chance de sentar do lado dele. E quem sabe todo a sua vida seria definida ali.

Ele entraria e sentaria na janela. Ela, conforme o planejado [por ela] sentaria ao lado dele. Ela iria sorrir apenas, mas não puxaria assunto. Tímida demais para isso, mas ele, embora tivesse uma aparência comum, não seria apenas mais um cara. Não, ele não era comum. Ele estaria lendo “Alta fidelidade”, do Nick Hornby e isso sem dúvida seria um sinal! Claro! Era o livro favorito dela.

Mas o que serviria de assunto seria o seu Ipod. Ao tirar da bolsa para escolher a banda,  ele não seria nada discreto e descobriria que ela estava selecionando “She and Him” para tocar. Num impulso ele diria “Nossa! Eu adoro essa banda! Adoro a Zooey Deschannel!” E pronto! Bang! Almas gêmeas. Eles conversariam até chegar no ponto final e trocariam telefone e MSN. Dariam um beijo meio desconcertado no rosto, quando na verdade queriam mais, mas se contentariam. Eles se falariam por telefone e MSN quase todo dia, se apaixonariam, se formariam, iriam brigar, mas isso só iria fazer o amor deles mais forte, descobririam que não queriam ter filhos e,para não lidar com a pressão da família, mudariam de cidade. Iriam ser felizes e auto-suficientes longe de muitos.

A fila andou. Ela quase em transe caminhou rápido para se sentar perto dele, mas não conseguiu. Um senhor sentou ao lado do amor da sua vida, conforme ela sabia. Ela tentou observá-lo, mas não estava em um bom ângulo. Ela imaginou que desceriam no mesmo lugar, no ponto final e que, talvez, se esbarrassem e o livro dele cairia e seria um livro que ela também iria adorar e pronto. Tudo daria certo. O destino e a felicidade dela aconteceriam.

Péééé [o sinal] Aflita ela viu ele se levantando, percebeu que precisava fazer algo, era o amor da vida dela, tinha certeza. Sem ter certeza do que estava fazendo também se levantou e foi atrás dele. O ônibus parou, ele desceu, ela desceu. Ela andava rápido e não olhava para trás, ela desesperada disse:

- Moço, por favor!?

Ele como que assustado, parou, virou para trás e:

- Oi?

- Ah…ééé…que horas são?

- Hum, são 7:55.

- Ah tá bom, brigada.

Ele sorriu, como que dizendo “de nada”, virou e foi embora.

Desapontada, ela suspirou, sentou no banco do ponto de ônibus e esperou o próximo. Não era o amor e nem o ônibus certo. Talvez no próximo.

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Coletivo Open Bar

Postado por Yuri Kiddo
em 22 - jan - 2010

Yuri Kiddo acorda atrasado, mastigado e cansado como sempre. Liga o rádio nas news e toma aquele banho “rápido” de meia hora. No rádio, o homem anuncia meu desavanço: “SÃO OITO HORAS E DEZ MINUTOS”. BUCETA! Já era para eu estar no busão esse horário. Não corro, foda-se, já estou atrasado mesmo.

Dia de sorte: open bar no tróleibus! OBA! Mentira, só pareceu, porque tava a cidade inteira naquele coletivo! Tenso tenso tenso, cabe o mundo inteiro, é o busão micareteiro – fiz essa musiquinho enquanto sofria as dores do calor e da falta de espaço. O motorista ainda reclamou com uma pobre menina, que estava impedindo a passagem na catraca, mas não tinha pra onde ir. Ela ainda pediu desculpas! Fiquei puto e comprei a briga – com ela! Depois o motorista ainda arranjou outra treta com um passageiro.

Chegando no terminal Jabaquara para pegar o bom e velho metrô de todo dia, tudo lotado, movimento e celulares nos ouvidos. Agora sim, puta que pariu, OPEN BAR!! Gritei e corri em direção a multidão sem nem pensar. Não era mais fila, era um comboio, um arrastão, pensei “vô encher a cara e chegar travado no trampo”. Mais uma vez, leigo engano. O metrô estava quebrado, alguém deve ter feito alguma Kassab na linha. [N.A: Entenda Kassab por CAGADA, ASNEIRA, FILHA-DA-PUTAGEM, ESTUPIDEZ, MONGOLOIDISSE, PORRA ERRADA, CARALHADA, e segue nessa linha]

Há, aí eu tive uma ideia que ninguém jamais teria, cof cof: Vou de ônibus! Claro, tem um busão ali que vai pra estação Paraíso, chegando ali tá ótimo. Quando olhei o ponto pensei que, de duas uma, ou o Michael Jackson estava vivo e naquele busão, ou aí sim, era open bar. Adoro me enganar.

Acabei no Pão de Açúcar, ali do lado, lendo tragédias no jornal enquanto pensava na minha própria. Cheguei atrasado, pobre e seco. Mas aprendi uma lição: Com fé, se chega a Jesus, que de busão ou não, tenho certeza que será o host do maior open bar no Céu. E foi por essas e outras que ele foi cruscificado. Mas aí é outra história.

Até mais, amiguinhos.

ps.: Este texto foi escrito sob efeito de tédio, muito sono e ignorando todas as responsabilidades durante o período de trabalho. Todos nos escritos acima foram prejudicados: a população que se enfrenta todo dia enquanto o kassabinho dá o roles de pirocóptero; Jesus, que só queria um open bar com preços justos e os judeus não aceitaram isso; eu, que fiquei sem Jesus e sem open bar, só com a população e trabalho.

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Véspera

Postado por Yuri Kiddo
em 15 - jan - 2010

Acordou, como todo dia acordava, sempre igual. Por enquanto, nem sinal do Sol, o relógio datava cinco horas da matina. Levantou e a passos pesados pôs água para esquentar o café amargo, anunciando seu humor para mais um dia. Tomou um banho ouvindo as mesmas notícias de todas as manhãs, lavou o pouco cabelo que restava e chorou baixinho como de costume. Pôs a roupa de trabalho, camisa social e uma calça jeans, nada de mais. Não gostava muito, mas não tinha problema, não era nada de mais. Tomou seu café acompanhado de um cigarro e saiu para mais um dia de trabalho.

Acendeu mais um cigarro e foi olhando para o chão, seguindo seus pés que quase se arrastam no asfalto enquanto vai pensando se não esqueceu de fechar a casa. Em dez anos morando no mesmo lugar nunca havia esquecido, mas sempre pensava a mesma coisa. Dez anos, que dureza. O Sol dava seus primeiros sinais de luz, enquanto nosso indivíduo enfrentava o primeiro desafio até o trabalho: um busão lotado, como todo dia, apesar de ser vinte e quatro de dezembro. Acomoda-se entre os outros corpos em pé e espera. Só o que lhe resta, esperar, esperar, esperança.

Trem. Mais um monte de fila, movimentos lentos na mesma direção e em direções opostas. Nosso tio sempre sente uma vertigem e nunca sabe direito onde deve ir, apesar dos vinte anos fazendo o mesmo caminho. Vagão lotado, ninguém cede lugar, não há espaço. Cheiro forte logo de manhã. Baldeação, repete a história. O Sol anuncia um dia quente logo de manhãzinha. Anda mais quinze minutos até o local de trabalho.

Despediu-se de todos e desejou um feliz natal. Trabalhou só meio período, queria ter feito integral, pois agora não saberia o que fazer com o tempo livre. No caminho de volta, pensa se não deixou de fazer alguma coisa na firma. Vinte e cinco anos de firma, o mesmo caminho, pensando a mesma coisa. O Sol escaldante lhe dá tontura, então para e senta um pouco numa mureta perto da rua. Carros, gente, barulho, gritos, sirenes, cinzas, coloridos… Vê, ouve, cheira e sente tudo de uma vez. Retoma o fôlego e entra na estação. Dia de sorte, pisou na plataforma e seu trem já estava a caminho. Vazio, resolveu esperar o próximo. E o próximo. Ficou lá até o comecinho da noite. Pegarei o próximo, pensou. Outros próximos apareceram. Pensou seus pensamentos de rotina e determinou:

- ano que vem será melhor pra mim, vou fazer diferente.

Entusiasmado, como não havia ficado em anos, se jogou nos trilhos antes do “próximo” chegar. Em seu bolso, apenas um bilhete que dizia Feliz Natal.

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The best seat

Postado por Milla Pupo
em 11 - jan - 2010

Escolher o lugar onde sentar no ônibus é uma arte, é estratégia pura, pode acreditar. Logicamente que só se escolhe um lugar no ônibus quando se embarca nele em terminais, quando você entra e olha aquele corredor e cadeiras vazias. É quase um sonho, mas em contraposição, a escolha deve ser feita com alguma rapidez, já que atrás de você sempre tem outra pessoa igualmente sedenta por um lugar.

Onde se sentar é coisa séria, no meu caso, bem séria, pois meu trajeto leva uma hora, logo uma escolha infeliz pode ser torturante. O melhor lugar é no meio do ônibus. Nem perto da catraca e nem perto da porta. Eu explico: por estar longe da catraca, você evita que pessoas com crianças de colo, malas, sacolas e corpos, te olhem copiosamente pedindo seu banco, a distância da porta de saída, evita os idosos, já que muitos entram por lá. Pode reparar, uma mulher com uma criança no colo, depois de passar da catraca, não anda mais que dois bancos, sempre tem uma pessoa caridosa [ou imbecil, afinal quem mandou ter filho] para ceder um lugar. O mesmo acontece na porta de trás, entra um idoso e ele não dá três passos, alguém se levanta e dá o banco. Por isso, nada de extremidades, o melhor lugar é no meio do ônibus.

Ok. Escolhido um lugar no meio, há duas possibilidades. Sentar na janela ou no corredor. Escolher a janela significa que você não terá que lidar com as pessoas que passam pelo corredor e que parecem ter como plano de vida levar seu braço embora, quando não sua cabeça e até sua dignidade, entretanto também implica no fato de que você não terá controle algum acerca do cidadão que irá se sentar ao seu lado. Pode ser uma pessoa robusta [dizer gorda é politicamente incorreto] que irá te esmagar contra o vidro durante a viagem toda, pode ser uma pessoa falante, pode ser um trabalhador sonolento que vai cair em cima de você na primeira curva, pode ser uma criança pentelha, pode ser um maluco, um alien, um engravatado, enfim, pode ser qualquer coisa ou pessoa.

Ninguém quase nunca senta no corredor por vontade própria, porque ele é o que sobrou, é o resto, sendo assim, seu livre arbítrio, fica condicionado a escolher apenas a pessoa que vai partilhar o banco do ônibus com você. Para mulheres, é uma boa sentar perto de outras mulheres, simplesmente porque sentar ao lado de homens significa que você terá consciência de que ele tem saco, no primeiro momento que ele relaxar e resolver abrir as pernas para ficar mais confortável. Além disso, mulheres tendem a ser menores, e de acordo com minha experiência, quase nunca dormem de formas bizarras no ônibus. Já sentar perto de seres do sexo masculino, além do agravante das bolas, há também a forma cretina de dormir. Muitos desenvolvem o estilo “pêndulo” e ficam pra lá e pra cá o trajeto todo e, conseqüentemente, ficam batendo em você. Os problemas que se pode ter com uma mulher ao lado são mais simples é provável ter que lidar com excesso de perfume, cabelos grandes/volumosos em sua boca quando ventar, uma bolsa gigante que invade seu lugar e coisas assim.

Em resumo: fuja de homens no ônibus, se for bonito e do interesse, a conversa é outra, mas no geral, evite. Não sente perto de pessoas já dormindo, pois muitas têm reações assustadoras, como acordar batendo em quem está ao seu lado, daí já viu, castigo duplo, ônibus e surra. Evite pessoas robustas, cabelos grandes, malas de viagem e crianças.

Se fosse para descrever o melhor lugar do ônibus eu diria que é no meio, na janela, com uma anã muda e careca ao seu lado. Acho que esse é meu sonho.

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Ana Rosa

Postado por Yuri Kiddo
em 18 - dez - 2009

Tudo que foi dito no passado ficou. Mas as emoções passaram como um filme que assistimos, nos emocionamos e depois esquecemos.

Ele nunca mais a viu como prometeu, ela nunca mais ligou, como prometeu. Parou de correr atrás, agora corre na frente. E ele, sem conseguir alcançá-la, parou de correr.

A garota com nome de estação, a mesma que se conheceram, por acaso, num esbarrão dele distraído, num sorriso dela e num pouco mais de olhar. Pronto. Se encontraram e se perderam muitas vezes ali, entre as pessoas, entre os espaços, entre olhares e abraços.

Até não mais.

Ele ainda a vê às vezes misturada na multidão do vagão, na fila do metrô ou no meio dos transeuntes da estação. Ela não o vê, e ele nunca consegue chegar até ela. Seus passos se cruzam, porém não se encontram. Até aqui.

Deixou o bilhete velho e amassado naquela estação de metrô de todo dia, porque um dia…

Minha bela Ana Rosa,

Peço por favor não vá embora. Eu sei que te abandonei e que fui egoísta, mas te peço, por favor, não pague na mesma moeda. Pode ser a nossa vez, nossa última vez, como já tivemos e eu achei que não a veria nunca mais. (E assim era pra ser)

Este bilhete é pra dizer tudo que sabe que não digo, e que se faz necessário ao nosso encontro. Porque sei que, talvez não hoje ou amanhã te encontrarei, mas virei aqui todos os dias até que este bilhete esteja em suas mãos, e você nas minhas.

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Maluca 1

Postado por Renan
em 16 - dez - 2009

Dessa vez eu estava sentado em um banco normal, terminando de ler o meu A Lista de Schindler, mas aí bateu aquele sono de quebrar pescoço de tanto que a cabeça pesa. Acabei por quardar o livro e recostar no banco, que ficava na janela, e tirar aquele cochilo de olho aberto. Acordei meio sonolento na metade do caminho, o banco estava confortável, não havia ninguém roubando meu espaço então resolvi continuar de olhos fechados. Foi quando o ônibus parou no terminal. Senti um cutucada na canela seguida de um pedido:

- Meu filho, deixa eu sentar aí.

A princípio ignorei. Pensei comigo: estou de fone, de olhos fechados, a cadeira não é para idosos ou derivados. Vou fingir que estou dormindo sem piedade alguma. Foi aí que senti mais uma cutucada na perna abri os olhos e vi a pessoa. Uma maltrapilha na pegada mendiga suja que não via um chuveiro desde o impeachment do Collor. E mais uma vez repetiu:

- Meu filho, deixa eu sentar aí, eu preciso sentar.

Se fosse apenas isso eu ainda permaneceria no meu lugar. Agora o fato dela ter escarrado no espelho depois da segundo súplica foi um fator decisivo para que levantasse. Liguei o alerta de maluco no máximo, levantei na pressa e a Mendiga começou o show:

- Eu tenho que tomar banho 3 vezes por dia. Porque eu gosto de ficar limpa. Vou abrir esse vidros pra respirar, porque o bafo de vocês fede muito. Não gosto de bafo. E eu falo pra minha neta escovar os dentes e tomar banho pra não ficar igual vocês, seus fedidos.

Seguiu-se outra catarrada, dessa vez no chão. E o pessoal em volta caiu na risada(Juro que não entendi o porquê!). Cena feita, a Mendiga começou a domir e roncar, algo que não me surpreendeu. Eu estava com a atenção nela, pois fiquei perto(Onibus lotado!) e precisa observar o que ela poderia fazer. Porque você sabe. Maluco é igual bomba-relógio sem timer, uma hora explode, então é bom ficar de olho. E nessa você tem que evitar ao máximo olhar para outras pessoas, pois os free-talkers estão com a boca espumando esperando para que alguém dê atenção para comentar o ocorrido. E foi só um deslize meu. Passei a vista e a senhora que estava na minha frente, desesperada por atenção, lançou:

- A gente sente dó né. Não sabe se é culpa do marido ou dos filhos, a pessoa chegar numa situação dessas.

Concordei com um simples “pois é”.

E agora além da mendiga maluca, eu tinha que desviar atenção da free talker. Resultado óbvio, torcicolo. Que é claro, vale mais que um small-talk ou uma catarrada.

Dessa vez eu estava sentado em um banco normal,

terminando de ler o meu A Lista de Schindler, mas aí

bateu aquele sono de quebrar pescoço de tanto que a

cabeça pesa. Acabei por quardar o livro e recostar no

banco, que ficava na janela, e tirar aquele cochilo de

olho aberto. Acordei meio sonolento na metade do caminho,

o banco estava confortável, não havia ninguém roubando

meu espaço então resolvi continuar de olhos fechados. Foi

quando o ônibus parou no terminal. Senti um cutucada na

canela seguida de um pedido:

- Meu filho, deixa eu sentar aí.

A princípio ignorei. Pensei comigo: estou de fone, de

olhos fechados, a cadeira não é para idosos ou derivados.

Vou fingir que estou dormindo sem piedade alguma. Foi aí

que senti mais uma cutucada na perna abri os olhos e vi a

pessoa. Uma maltrapilha na pegada mendiga suja que não

via um chuveiro desde o impeachment do Collor. E mais uma

vez repetiu:

- Meu filho, deixa eu sentar aí, eu preciso sentar.

Se fosse apenas isso eu ainda permaneceria no meu lugar.

Agora o fato dela ter escarrado no espelho depois da

segundo súplica foi um fator decisivo para que

levantasse. Liguei o alerta de maluco no máximo, levantei

na pressa e a Mendiga começou o show:

- Eu tenho que tomar banho 3 vezes por dia. Porque eu

gosto de ficar limpa. Vou abrir esse vidros pra respirar,

porque o bafo de vocês fede muito. Não gosto de bafo. E

eu falo pra minha neta escovar os dentes e tomar banho

pra não ficar igual vocês, seus fedidos.

Seguiu-se outra catarrada, dessa vez no chão. E o pessoal

em volta caiu na risada(Juro que não entendi o porquê!).

Cena feita, a Mendiga começou a domir e roncar, algo que

não me surpreendeu. Eu estava com a atenção nela, pois

fiquei perto(Onibus lotado!) e precisa observar o que ela

poderia fazer. Porque você sabe. Maluco é igual

bomba-relógio sem timer, uma hora explode, então é bom

ficar de olho. E nessa você tem que evitar ao máximo

olhar para outras pessoas, pois os free-talkers estão com

a boca espumando esperando para que alguém dê atenção

para comentar o ocorrido. E foi só um deslize meu. Passei

a vista e a senhora que estava na minha frente,

desesperada por atenção, lançou:

- A gente sente dó né. Não sabe se é culpa do marido ou

dos filhos, a pessoa chegar numa situação dessas.

Concordei com um simples “pois é”.

E agora além da mendiga maluca, eu tinha que desviar

atenção da free talker. Resultado óbvio, torcicolo. Que é

claro, vale mais que um small-talk ou uma catarrada.

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Próxima parada: humilhação

Postado por Milla Pupo
em 14 - dez - 2009

No ônibus você acaba vendo as mesmas pessoas diariamente. Com o tempo você já sabe que aquele carinha tende a cair em cima de você quando cochila, sabe que a senhora gorda ocupa espaço demais no banco, deixando espaço de menos pra você. Sabe que o senhor sempre reclama do motorista, sabe que a menina de bolsa espalhafatosa se maquia e deixa cheiro de batom barato e sabe que tem aquele menino ou menina que é uma graça, mas que, invariavelmente, você nunca dirá um “Oi” porque as chances de não dar em nada podem ser grandes e você pode ter que lidar com um climão no ônibus, coisa nada legal, certo?

Teve um tempo que eu pegava ônibus com um menino, ele não era uma graça, era um menino apenas, mas eu notava a presença dele e acho que ele notava a minha, porque nos olhávamos, mas um “Oi” nunca surgiu, enfim. Não bastasse ver o garoto todo dia de manhã, descobri que ele também pegava de noite o mesmo ônibus que eu, mas ele nunca disse nada e nem eu. Até que as coisas pioraram.

Aconteceu em uma manhã que chovia horrores. Eu corri para o ponto porque o ônibus estava lá parado, estava sem guarda chuva, cabelo na cara, rosto molhado e ofegante. As pessoas ainda entravam no ônibus. No momento em que peguei no corrimão da porta, percebi que eu peguei na mão de alguém, a pessoa se virou e adivinha? Sim, era o menino, que ficou me olhando com cara de “Você planejou pegar na minha mão, né?” A idiota aqui ficou paralisada e com vergonha e quase arranquei minha mão da dele e disse “Ai desculpa, não queria pegar na sua mão” o que me fez sentir mais idiota! Desculpa por quê? As pessoas se esbarram nos ônibus a todo o momento, eu pedir desculpa daquela forma tão afetada podia indicar algo mesmo. Como ficou parecendo pelo sorriso dele. Ah que vergonha.

E como humilhação não tem fim, ele entrou e sentou, eu fui seguindo pelo ônibus e onde tinha um lugar vago? Claro, do lado dele. Sentei, querendo sumir, coloquei meus fones e fui sem nem olhar para o lado. Nas curvas eu quase me grudava no banco para não encostar nele. Chegou meu ponto, desci correndo. Passou o dia.

Na volta eu me lembrei que ele também pegava ônibus comigo, mas estava tão cansada que ignorei. Ele estava lá na fila, mas eu entrei depois e sentei bem longe. Chegou meu ponto e eu fui a primeira a descer. Tinha prova e tinha que passar no banco para sacar dinheiro. Fiz o que tinha que fazer e fui para a sala, mas antes fui tomar água no bebedouro e tinha uma cara lá bebendo, fiquei atrás esperando, quando o menino acabou, virou, me olhou, era ele.

Eu não sou tímida, mas acho que fiquei vermelha, ele deu um sorriso irritante e saiu. Quis muito me afogar no bebedouro. Porque fiquei com a impressão de ser uma lunática! Uma daquelas meninas babacas que se apaixonam por um cara sem nunca ter trocado uma palavra, sabe? Pois bem, foi isso. Em um só dia eu passei de apenas uma garota para uma stalker profissional, digna da Misery, ótimo!

Ele continua pegando ônibus comigo de noite, continua estudando no mesmo prédio que eu e toda vez que eu o vejo, finjo que não sou eu e penso que queria descobrir um caminho em um mundo paralelo.

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Cidade

Postado por Yuri Kiddo
em 11 - dez - 2009

A cidade é um labirinto, um monstro faminto de garras sombrias. As ruas são caminhos para todos os lugares e para nenhum deles. Ruas próximas, distantes, frias. Tudo assim ao mesmo tempo, com a mesma veracidade. Visceral. Ando por terra, por baixo dela, no busão, coletivo-condução. Me leva sem destino porque não tenho onde ir. Se não posso lutar, estendo o braço pro primeiro que passar. Posso fugir. Giro, viro, rodopio… Acabo no mesmo lugar.

Em pé ou sentado, vazio ou abarrotado, me leva e me deixo levar – mas R$ 2,50, o que é que há? – É pela sua janela que me vejo refletido no cinza que passa e ainda é cinza, por onde meu olho enxergar, cinza de poluição, até o som. Cidade de tons. Funk, choro, histórias pela metade – às vezes até fazemos parte, quando aquele velhinho simpático e solitário faz companhia a este jovenzinho antipático e solitário. Ele com a vantagem da simpatia e experiência, eu com a vantagem do tempo que me resta. Ou não, bato a testa no vidro, dormi sem querer. Perdi o ponto, o equilíbrio, o conto. Puta que pariu, tô fudido.

Andando parado, às vezes sem itinerário, é onde li grandes autores. Nos transportes mais lotados foi onde conheci grandes amores. Passageiros. Coletivo de gente. Cada um, um diferente. Cada um uma Torre de Babel. Aqui sim eu acredito, não naquela do livro tão bendito. No céu, nem sinal do Sol. Dou o sinal, me despeço de todas as etnias, credos, cheiros. Busão barulhento. Tudo no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Um lugar móvel que conta histórias, guarda lembrança, mas não deixa saudade. Todo coletivo é uma cidade.

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