No ônibus você acaba vendo as mesmas pessoas diariamente. Com o tempo você já sabe que aquele carinha tende a cair em cima de você quando cochila, sabe que a senhora gorda ocupa espaço demais no banco, deixando espaço de menos pra você. Sabe que o senhor sempre reclama do motorista, sabe que a menina de bolsa espalhafatosa se maquia e deixa cheiro de batom barato e sabe que tem aquele menino ou menina que é uma graça, mas que, invariavelmente, você nunca dirá um “Oi” porque as chances de não dar em nada podem ser grandes e você pode ter que lidar com um climão no ônibus, coisa nada legal, certo?
Teve um tempo que eu pegava ônibus com um menino, ele não era uma graça, era um menino apenas, mas eu notava a presença dele e acho que ele notava a minha, porque nos olhávamos, mas um “Oi” nunca surgiu, enfim. Não bastasse ver o garoto todo dia de manhã, descobri que ele também pegava de noite o mesmo ônibus que eu, mas ele nunca disse nada e nem eu. Até que as coisas pioraram.
Aconteceu em uma manhã que chovia horrores. Eu corri para o ponto porque o ônibus estava lá parado, estava sem guarda chuva, cabelo na cara, rosto molhado e ofegante. As pessoas ainda entravam no ônibus. No momento em que peguei no corrimão da porta, percebi que eu peguei na mão de alguém, a pessoa se virou e adivinha? Sim, era o menino, que ficou me olhando com cara de “Você planejou pegar na minha mão, né?” A idiota aqui ficou paralisada e com vergonha e quase arranquei minha mão da dele e disse “Ai desculpa, não queria pegar na sua mão” o que me fez sentir mais idiota! Desculpa por quê? As pessoas se esbarram nos ônibus a todo o momento, eu pedir desculpa daquela forma tão afetada podia indicar algo mesmo. Como ficou parecendo pelo sorriso dele. Ah que vergonha.
E como humilhação não tem fim, ele entrou e sentou, eu fui seguindo pelo ônibus e onde tinha um lugar vago? Claro, do lado dele. Sentei, querendo sumir, coloquei meus fones e fui sem nem olhar para o lado. Nas curvas eu quase me grudava no banco para não encostar nele. Chegou meu ponto, desci correndo. Passou o dia.
Na volta eu me lembrei que ele também pegava ônibus comigo, mas estava tão cansada que ignorei. Ele estava lá na fila, mas eu entrei depois e sentei bem longe. Chegou meu ponto e eu fui a primeira a descer. Tinha prova e tinha que passar no banco para sacar dinheiro. Fiz o que tinha que fazer e fui para a sala, mas antes fui tomar água no bebedouro e tinha uma cara lá bebendo, fiquei atrás esperando, quando o menino acabou, virou, me olhou, era ele.
Eu não sou tímida, mas acho que fiquei vermelha, ele deu um sorriso irritante e saiu. Quis muito me afogar no bebedouro. Porque fiquei com a impressão de ser uma lunática! Uma daquelas meninas babacas que se apaixonam por um cara sem nunca ter trocado uma palavra, sabe? Pois bem, foi isso. Em um só dia eu passei de apenas uma garota para uma stalker profissional, digna da Misery, ótimo!
Ele continua pegando ônibus comigo de noite, continua estudando no mesmo prédio que eu e toda vez que eu o vejo, finjo que não sou eu e penso que queria descobrir um caminho em um mundo paralelo.
dezembro 28th, 2009 at 10:54
Hahaha muito bom! incrível como o acaso fode a gente às vezes né?!