Já na fila, no terminal, ela o observou. Ele, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro. Olhos e cabelos castanhos, uma pessoa, por assim dizer, castanha. Ordinariamente comum para muitos, mas não para ela que o observou. Que conseguiu ver muito mais por trás daqueles óculos marrom.
O ônibus não chegava e na fila ela ficou torcendo para pegar o mesmo coletivo que ele, porque poderia ter uma chance de sentar do lado dele. E quem sabe todo a sua vida seria definida ali.
Ele entraria e sentaria na janela. Ela, conforme o planejado [por ela] sentaria ao lado dele. Ela iria sorrir apenas, mas não puxaria assunto. Tímida demais para isso, mas ele, embora tivesse uma aparência comum, não seria apenas mais um cara. Não, ele não era comum. Ele estaria lendo “Alta fidelidade”, do Nick Hornby e isso sem dúvida seria um sinal! Claro! Era o livro favorito dela.
Mas o que serviria de assunto seria o seu Ipod. Ao tirar da bolsa para escolher a banda, ele não seria nada discreto e descobriria que ela estava selecionando “She and Him” para tocar. Num impulso ele diria “Nossa! Eu adoro essa banda! Adoro a Zooey Deschannel!” E pronto! Bang! Almas gêmeas. Eles conversariam até chegar no ponto final e trocariam telefone e MSN. Dariam um beijo meio desconcertado no rosto, quando na verdade queriam mais, mas se contentariam. Eles se falariam por telefone e MSN quase todo dia, se apaixonariam, se formariam, iriam brigar, mas isso só iria fazer o amor deles mais forte, descobririam que não queriam ter filhos e,para não lidar com a pressão da família, mudariam de cidade. Iriam ser felizes e auto-suficientes longe de muitos.
A fila andou. Ela quase em transe caminhou rápido para se sentar perto dele, mas não conseguiu. Um senhor sentou ao lado do amor da sua vida, conforme ela sabia. Ela tentou observá-lo, mas não estava em um bom ângulo. Ela imaginou que desceriam no mesmo lugar, no ponto final e que, talvez, se esbarrassem e o livro dele cairia e seria um livro que ela também iria adorar e pronto. Tudo daria certo. O destino e a felicidade dela aconteceriam.
Péééé [o sinal] Aflita ela viu ele se levantando, percebeu que precisava fazer algo, era o amor da vida dela, tinha certeza. Sem ter certeza do que estava fazendo também se levantou e foi atrás dele. O ônibus parou, ele desceu, ela desceu. Ela andava rápido e não olhava para trás, ela desesperada disse:
- Moço, por favor!?
Ele como que assustado, parou, virou para trás e:
- Oi?
- Ah…ééé…que horas são?
- Hum, são 7:55.
- Ah tá bom, brigada.
Ele sorriu, como que dizendo “de nada”, virou e foi embora.
Desapontada, ela suspirou, sentou no banco do ponto de ônibus e esperou o próximo. Não era o amor e nem o ônibus certo. Talvez no próximo.