Véspera

Postado por Yuri Kiddo em 15 - jan - 2010

Acordou, como todo dia acordava, sempre igual. Por enquanto, nem sinal do Sol, o relógio datava cinco horas da matina. Levantou e a passos pesados pôs água para esquentar o café amargo, anunciando seu humor para mais um dia. Tomou um banho ouvindo as mesmas notícias de todas as manhãs, lavou o pouco cabelo que restava e chorou baixinho como de costume. Pôs a roupa de trabalho, camisa social e uma calça jeans, nada de mais. Não gostava muito, mas não tinha problema, não era nada de mais. Tomou seu café acompanhado de um cigarro e saiu para mais um dia de trabalho.

Acendeu mais um cigarro e foi olhando para o chão, seguindo seus pés que quase se arrastam no asfalto enquanto vai pensando se não esqueceu de fechar a casa. Em dez anos morando no mesmo lugar nunca havia esquecido, mas sempre pensava a mesma coisa. Dez anos, que dureza. O Sol dava seus primeiros sinais de luz, enquanto nosso indivíduo enfrentava o primeiro desafio até o trabalho: um busão lotado, como todo dia, apesar de ser vinte e quatro de dezembro. Acomoda-se entre os outros corpos em pé e espera. Só o que lhe resta, esperar, esperar, esperança.

Trem. Mais um monte de fila, movimentos lentos na mesma direção e em direções opostas. Nosso tio sempre sente uma vertigem e nunca sabe direito onde deve ir, apesar dos vinte anos fazendo o mesmo caminho. Vagão lotado, ninguém cede lugar, não há espaço. Cheiro forte logo de manhã. Baldeação, repete a história. O Sol anuncia um dia quente logo de manhãzinha. Anda mais quinze minutos até o local de trabalho.

Despediu-se de todos e desejou um feliz natal. Trabalhou só meio período, queria ter feito integral, pois agora não saberia o que fazer com o tempo livre. No caminho de volta, pensa se não deixou de fazer alguma coisa na firma. Vinte e cinco anos de firma, o mesmo caminho, pensando a mesma coisa. O Sol escaldante lhe dá tontura, então para e senta um pouco numa mureta perto da rua. Carros, gente, barulho, gritos, sirenes, cinzas, coloridos… Vê, ouve, cheira e sente tudo de uma vez. Retoma o fôlego e entra na estação. Dia de sorte, pisou na plataforma e seu trem já estava a caminho. Vazio, resolveu esperar o próximo. E o próximo. Ficou lá até o comecinho da noite. Pegarei o próximo, pensou. Outros próximos apareceram. Pensou seus pensamentos de rotina e determinou:

- ano que vem será melhor pra mim, vou fazer diferente.

Entusiasmado, como não havia ficado em anos, se jogou nos trilhos antes do “próximo” chegar. Em seu bolso, apenas um bilhete que dizia Feliz Natal.

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