Nada de protesto

Postado por Yuri Kiddo em 05 - fev - 2010

As pessoas são fodas. O meu fone está quebrado faz um tempo já e só funciona quando quer. Semanas atrás eu estava no tróleibus, voltando de um dia de trabalho árduo, de conversas ásperas e pessoas chatas, só querendo sumir quando de repente o trololó para e fica. Eu estava sentado, ainda bem, porque o bus tava lotado, como sempre.

“Ihhh que será que aconteceu?”

“Um ônibus quebrou”

“Não, é um protesto, parece”.

“Esses baderneiros, ficaí atrapalhando a vida dosotro. Vai protestar pra lá”.

Claaaro que ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo e nem dava pra ver nada direito. As frases estúpidas daquelas pessoas estavam me rasgando, mas tentei manter a atenção no que eu estava lendo e ignorar o calor e os trabalhadores reacionários presentes. O céu cada vez mais fechado começou a me deixar cada vez mais frustrado. Queria sair dali, ficar surdo, limpo e descansado no conforto da minha cama. Aquele dia tinha sido longo demais. Longo demais.

Aquelas reclamações eram horríveis. As pessoas só falam merda, parece até que intencionalmente. Multidão se nivela sempre por baixo. “Ihhh botaram fogo no sofá, olha lá”. Nesse momento, já havia uma frota de ônibus aguardando o final do alarde. Polícia, bombeiros, sirenes. Nessa hora, o comboio de gente dos outros ônibus já tinha entrado no tróleibus que eu estava. Entrem, entrem no Coração de Mãe com destino à Diadema. Trash!

Tinha saído às 18h em ponto do trabalho. Meu itinerário, em horários obscuros, eu consigo estar em casa em 1h15 no máximo; no horário de pico, 1h40. Eram 19h30 e eu lá, parado em frente ao CÉU Jabaquara, totalmente passivo. No final, eu cheguei mais de 20h em casa, tomei chuva, estava com fome e sem fone. E o que realmente aconteceu foi que uns garotos tinham posto fogo nuns barracos ali na favela da Americanópolis e tinham interditado a rua. Nada de protesto, infelizmente.

2 Passageiros para“ Nada de protesto ”

  1. Renan
    diz:

    Também passei pelo mesmo perrengue. mas ao contrário de vc, meu mp3 salvou a vida, já o cheiro de cachorro matado a tapa imperava.

  2. brunna
    diz:

    “As frases estúpidas daquelas pessoas estavam me rasgando, mas tentei manter a atenção no que eu estava lendo e ignorar o calor e os trabalhadores reacionários presentes.”

    um incômodo diário.
    da rotina nos ônibus, no metrô. na cidade.

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