Na avenida Paulista, em direção ao trabalho, uma senhora de quase um século andava em direção oposta a minha, me olhou, apontou para onde tinham uns moradores de rua acordando e fez uma cara de repugnância.
- O que foi, senhora?
Ela me contou sobre como esses moradores estragam a cidade, são a escória da raça humana, resumidamente. Tivemos uma rápida discussão e falei sobre a culpa da sociedade nisso tudo, que nós, inclusive ela, era culpada. Ela me xingou, exonerou minha existência – jovem, que ela insistiu em frisar – com escárnios dispensáveis para se prolongar aqui. Tudo em alto e bom som.
Mesmo ignorando-a, meu humor tinha ido para o espaço logo de manhã. Mas foda-se, não preciso me preocupar tanto com as senhoras que encontramos no caminho, logo logo elas morrem.
À noite, voltando para casa, no busão lotado, eu vacilei e quase caí numas pessoas que estavam sentadas. Uma delas era uma senhora, também de quase um século, que me segurou e perguntou se eu estava bem. – Estou bem, obrigado.
Geralmente os idosos são ranzinzas, apressados e mal-educados. Mas a senhora me surpreendeu quando se ofereceu para segurar a minha mochila, enquanto me assistia atrapalhado tentando guardar um livro, segurando uma caneta, com um gordão do tamanho do ônibus tentando passar para chegar na porta. – Não precisa, não, obrigado. E sorri um sorriso sincero, de simpatia. Fui simpático.
Vagou um lugar ao lado da senhora e eu sentei. Claro que ela puxou assunto, e eu gosto de small talks, dei corda. Ela começou falando sobre um periquito que estava trazendo numa caixinha, ali mesmo no bus. Me mostrou e me falou sobre outros passarinhos que tinha em casa, e em como ficou triste e chorou quando um morreu afogado numa pequena bacia que ela colocara para eles se banharem. Eu queria dizer que não gostava da ideia de prender os pássaros e que, na verdade, eu nem gostava de passarinhos. Mas não quis ser grosseiro, eu queria ouvi-la desabafar.
A senhora é portuguesa, está no Brasil desde os nove anos, mas nunca perdeu o forte sotaque. Ela disse que ia descer no próximo, pediu para eu puxar o sinal. Eu também iria descer no próximo. – Ótimo, ela disse, somos vizinhos. Quando ela me contou onde morava, acabei descobrindo que ela é avó de uma garota que estudou comigo no colégio. Descemos, nos despedidos.
- Tenha uma boa vida senhorinha.
- (Ela ri) Você também, meu filho.
As senhoras dos nossos caminhos. Logo logo elas morrem.
março 26th, 2010 at 11:19
“ela é avó de uma garota que estudou comigo no colégio.”
Que máximo cara…o idéia do Six Degrees está impregnada até mesmo no ônibus. E palmas pra vc que conseguiu levar uma boa conversa com alguém idoso!