É um ponto errado, um sinal não dado, um tropeço para frente ou para trás. É a falta de troco, a falta da passagem, a moeda que não completa, a catraca que não vira. Trava a viagem, trava a vida, trava a língua. Nem uma palavra sai e nem um passo vai.
É o coletivo individual, trancado nos meus fones, nos meus livros, arremetido na poça da beira da porta. É o cobrador que não é cobra e o motorista que não olha a velha na porta. Sou eu querendo sair antes de chegar. É o freio que faz todo mundo sambar, é a curva que te entorta e a reta que não chega. É o cheiro de cebola saindo e a fumaça do motor entrando.
Sou eu fazendo parte, sem querer me integrar. É você me vendo e fingindo não estar. É a esmola da minha passagem com vergonha da sua. É meu sinal que nada diz, meu ponto que não condiz. É meu transporte, falta de opção, carência e emoção. É a passagem diária para o abandono do meu mundo, é a zona de conforto se despedindo. Sou eu dando “bom dia” e atropelando ironias. Somos nós partilhando o mesmo corredor. Eu primeira pessoa e você, sempre terceira. “Nós” nunca existirá porque sua função é me carregar. Pra lá e de volta aqui, até de novo partir.
Boa viagem.
março 26th, 2010 at 11:10
você com certeza está vivendo uma ótima fase literária, senão a melhor, pupo! =D